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4.9.12




"Chigalev

- Tendo-me consagrado ao estudo da organização da sociedade futura, cheguei à conclusão que, desde os tempos mais remotos até aos nossos dias, todos os autores de sistemas sociais só têm dito asneiras. Foi portanto preciso que eu construísse o meu próprio sistema de organização. Ei-lo! A minha obra na verdade não está concluída. Tal como está, necessita no entanto já de ser discutida. Além de que eu tenho de explicar-vos a contradição à qual fui levado. Partindo da Liberdade ilimitada, cheguei, com efeito, ao despotismo também ilimitado.

(...)

Lipoutine

- Sim. Ele propõe dividir a humanidade em duas partes desiguais. Um décimo, aproximadamente, gozará a liberdade absoluta e terá uma autoridade ilimitada sobre os outros nove décimos que deverão perder a sua personalidade e tornarem-se numa espécie de rebanho. Mantidos na submissão cega, de carneiros, eles atingirão, em recompensa, o estado de inocência de esses interessantes animais. Em resumo, será o Éden, com a diferença que será preciso trabalhar.    



Chigalev

- Sim é assim que consigo a igualdade. Todos os homens serão escravos e iguais na escravatura. De outra forma não podem ser iguais. Portanto é preciso nivelar. Baixaremos, por exemplo, o nível da instrução e dos talentos. Como os homens de querem sempre elevar-se, é preciso infelizmente cortar a língua a Cícero, arrancar os olhos a Copérnico e apedrejar Shakespeare. Eis o meu sistema.

Lipoutine

-Sim, o sr. Ghigalev descobriu que as faculdades superiores são germes de desigualdade, portanto de despotismo. Desde que se descubra que um homem tem faculdades superiores, ou se abate ou se enclausura. Até as pessoas muito belas são suspeitas pelo mesmo motivo e é necessário suprimi-las.

(...)

O Seminarista

- Mas você está em contradição. Uma tal igualdade, é o despotismo.

Chigalev

- É verdade, e é isso que decepciona. A contradição desaparece porém se dissermos que um tal despotismo, é a igualdade."



Camus, Albert. Os Possessos.  ed. Livros do Brasil, Lisboa, 2003, pp.185/188.

24.4.10

"CADA HOMEM UM ARTISTA", JOSEPH BEUYS*

e,
na acidental e feliz expressão da minha irmã, CADA PESSOA UMA ARTISTA,


e,
como lembra Agostinho da Silva, a vocação do ser humano é ser poeta (à solta), criador, deus, no sentido da sua autodeterminação, "o homem não foi feito para ** trabalhar mas para criar" (AS) 


Crente é pouco
Sê-te Deus
E para o nada que é tudo
Inventa caminhos teus


(poema de Agostinho da Silva)


e,
" A criatividade não é um monopólio dos artistas... Quando eu digo que cada homem é um artista, quero dizer que todos podem determinar o conteúdo da vida na sua esfera particular, seja na pintura, na música, na engenharia, no cuidar de doentes, na economia por aí fora." (Joseph Beuys)



"O que afirmo é que cada ser humano é uma consciência totalmente particular, uma possibilidade. E essa possibilidade não está fechada. Pode desenvolver-se para tornar-se maior. E a melhor forma é mediante um processo de educação e informação. Mas esse processo de educação, mais uma vez, não tem de ser autoritário, mas deveria acontecer de maneira oscilante entre as pessoas, ou seja, como uma relação universal do professor e do aluno. Entre os seres humanos. Tão Universal, no fundo, que se possa dizer que a linguagem é o professor. Isto é, no momento em que falo sou momentaneamente o professor. E, quando escuto, o aluno. ( ...) Que se vença o mutismo entre as pessoas, que se supere a sua alienação e o seu distanciamento."(J.B.). 


daí que a intervenção de Joseph Beuys na Documenta V tenha sido o gabinete para a democracia directa, no qual Beuys põe em prática aquilo que acredita poder ser o ser humano, a arte e a sociedade. O gabinete de democracia directa possibilita que as pessoas discutam, conversem sobre coisas que lhes interessam, sobre aquilo que interfere nas suas vidas, que se organizem, que sejam agentes e não apenas instrumentos.  


___________________________________________________
* livro editado recentemente pela editora 7 nós (também ela recente), reproduz as conversas entre Beuys e os visitantes do gabinete para democracia directa, a sua intervenção na documenta V em 1972.
** a palavra trabalho deriva do latim tripalium (instrumento de tortura) associando-se a sofrimento, sacríficio e esforço. " observando como certas pessoas são coagidas a trabalhar - verdadeiros escravos da grande máquina social, apenas preocupada em produzir" (José Flórido, um Agostinho da Silva), Agostinho da Silva adverte para que o trabalho-produção, centrado no consumo, no ter, seja substituído pelo trabalho-educação que vá de encontro à realização integral do ser humano, ao seu ser. Aqui via Agostinho os fins do capitalismo e do desenvolvimento tecnológico, permitir que o ser humano tenha tempo livre, pois só no ócio podemos ser criadores e, portanto, "poetas à solta". 

16.10.09

"O HOMEM REVOLTADO"




Gravura de Catarina Verdier

"(...)Todo o REVOLTADO, pelo simples movimento que o leva a defrontar o opressor, defende portanto a vida; compromete-se a lutar contra a servidão, a mentira e o terror e afirma que esses três flagelos fazem reinar o silêncio entre os homens; obscurecendo-os uns aos outros e impedindo-os de se reencontrarem no único valor que os pode salvar do niilismo - a longa cumplicidade dos homens em luta com o próprio destino.

A REVOLTA não é, de forma alguma, uma reivindicação de liberdade total. Pelo contrário, a REVOLTA critica o processo da liberdade total. Contesta justamente o poder ilimitado que autoriza um superior a violar a fronteira interdita. Longe de reivindicar uma independência geral, o revoltado quer que seja reconhecido o seguinte: a liberdade possui os seus limites em toda a parte onde se encontre um ser humano, sendo esse limite precisamente o poder de revolta desse mesmo ser. (...) Não humilha ninguém. A liberdade que reclama reivindica-a ele para todos.(...) Não se trata apenas do escravo contra o senhor, mas também do homem contra o mundo do senhor e do escravo.

(...) A lógica do REVOLTADO consiste em querer servir a justiça para não aumentar a injustiça da condição e em esforçar-se por falar uma linguagem clara a fim de não adensar a mentira universal e de apostar, perante a dor dos homens, pela felicidade."

excertos de O HOMEM REVOLTADO de Albert Camus, publicado em 1951...

17.7.09

SEGURANÇA SOCIAL ou a nobre condição de PRECÁRIO POR CONTA PRÓPRIA

"...a segurança social não é um custo, mas um recurso", advertia esta noite Bagão Felix,
sendo, por direito, todos os cidadãos iguais perante o estado, porque será, questionei-me eu ao ouvir tão sábias palavras, que aqueles, ditos, trabalhadores por conta própria, sem que na realidade o sejam (uma entre as demais situações surreais que animam a nossa sociedade), descontando por si próprios o devido à dita segurança social, a ela não podem recorrer quando são despedidos? ou será dispensados? ou será? hum... faltam-me as palavras... esses que de um momento para o outro se viram sem o seu, tão por conta própria, trabalho.

já sei! desempregados (tb) por conta própria!
ainda não há uma estatistica oficial, mas consta que são já muitos os que aderiram a tão nobre condição.

um BRAVO para os corajosos! que voluntariamente abdicam de um recurso, que socialmente, é para todos, pagando, todos os meses, aquilo que é para eles , na realidade, um custo.
valiosa demonstração de altruismo. fenómeno exemplar!
estou certa que outros nobres cidadãos abdicarão das suas pensões vitalícias, que tão meritóriamente lhes foram atribuidas, e outros nobres, ainda impensáveis, gestos se seguirão.

E, agora, EXAGEROS, poema de Mário Henrique Leiria, de CONTOS DO GIN TONIC, em "palavras ditas", programa de televisão dedicado à poesia criado por Mário Viegas em 1984.

parece-me apropriado!

3.5.09

SOBRE O INDIVIDUO E A SOCIEDADE II

"Sou em geral conhecido como pessimista. Ao contrário do que alguma vez possa ter parecido, dada a insistência com que afirmo o meu radical cepticismo sobre a possibilidade de qualquer melhoria efectiva e substancial da espécie dentro do que em tempos não muito distantes se chamou progresso moral, preferiria ser optimista, mesmo que fosse apenas por ainda conservar a esperança de que o sol, por ter nascido todos os dias até hoje, nasça também amanhã. Nascerá, mas lá chegará também o dia em que ele se acabe."
excerto introdutório de maus tratos, texto de josé saramago, em o caderno de saramago, sobre a histórica subjugação da mulher pelo homem.
nos últimos anos estudos realizados em portugal indicam que:
em média, seis mulheres por semana são vitimas de crimes contra a vida e que a violência doméstica é apontada como principal causa de morte entre as mulheres, tendo-se em 2006 registado 39 assassinatos de mulheres pelos maridos ou companheiros. números que dão que pensar.


desenho de oskar kokoschka, para a sua peça assassino, salvação das mulheres, apresentada ao público no ano de 1909

Tal como dá que pensar as condições actuais de trabalho em portugal, eficaz estratégia de condenar o futuro? força cega ou de vistas curtas e bolsos cheios? querem convencer-se e convencer que é esse o único caminho?


"tudo está hoje em saber-se(...) se o capitalismo dos cartéis e "corporations" à escala mundial, por um lado, e os socialismos de estado, por outro (com a mesma preocupação aquisitiva e produtiva do capitalismo, que exigirá também a criação de sociedades de consumo), não vão a caminho de um encontro em que se ganhará em prosperidade o que totalmente se perderá em liberdade, , ou se, pelo o contrário, o gigantismo entrará dualmente em crise, ganhando-se em liberdade o que, em prosperidade de escravos com os ócios pagos, se perderá. O caso é que milénios de cultura já deviam ter ensinado que a IDADE DE OURO não chega nunca(...) o que sempre chega é a possibilidade de ver-se, para além disso tudo, a exigência de felicidade e de liberdade, sem que a vida não é possível naqueles termos de dignidade humana(...) o saber-se que é disso que se trata, independentemente da fidelidade a deuses ou a humanos(...) a dialéctica entre estar-se no mundo, ou só ou mal acompanhado, mas de, no fim de contas, não termos outro mundo senão este, e o que desejamos que ele seja."
o hoje, foi em janeiro de 1974, a actualidade é, na minha opinião, incontestável, as palavras são de JORGE DE SENA


19.4.09

SOBRE O INDIVIDUO E A SOCIEDADE I


o tema deste post é motivado pelos comentários que fiz no passado post, REMEMBER HOW IT ALL BEGAN, e por alguns pensamentos que têm-me ocorrido, entre conflitos internos e externos.
perante a questão: o que é o ESTADO?, ou também, o que pode ele ser, ou o que deveria ele ser, três questões distintas, e não tendo eu ideias assim tão claras sobre o assunto, pesquisei e recolhi alguma informação...
durante essas pesquisas deparei-me, no sítio citador, com um texto de AGOSTINHO DA SILVA, sobre o hábito de ter chefes.
pareceu-me que esse pensamento de AGOSTINHO sintetizava alguns pensamentos que emergiam e se acotovelavam dentro de mim.
há uma ideia que me surge, a de que O ESTADO SOMOS TODOS NÓS, bem sei que as coisas não são assim, que é uma ideia irreal, mas, apesar disso, em mim desejada, penso que o estado não deve ser uma entidade autómata, penso que o ESTADO poderia ser outra coisa e penso que para isso acontecer também o indivíduo e a sociedade, enquanto conjunto indivíduos, teriam de ser também eles diferentes.
ou, para haver uma mudança naquilo que o ESTADO e a SOCIEDADE são, terá de haver, primeiro, uma mudança no indivíduo... e essa mudança só pode vir de dentro, embora haja talvez circunstâncias exteriores que potenciem essa mudança.


não quero, por agora, desenvolver estas ideias ainda um pouco imberbes e certamente nada novas, gostaria apenas de deixar-vos com o pensamento de AGOSTINHO DA SILVA, sobre a necessidade de ter chefes, e a imagem deste homem que é para mim uma referência em muitos campos da vida.

"De todos os hábitos a que nos entregamos, um reina sobre todos os outros no que se refere a malefícios quanto ao mundo futuro. É o hábito de ter chefes. O medo das responsabilidades, o gosto de se encostar aos outros, o jeito mais fácil de não ter que decidir os caminhos fizeram que a cada instante lancemos os olhos à nossa volta em busca do sinal que nos sirva de guia. Quando surge uma dificuldade de carácter colectivo, a primeira ideia é a de que devia surgir um homem que tomasse sobre os seus ombros o áspero martírio de ser chefe. Pois bem: pode ser que isto tenha trazido grandes benefícios em outras crises da História; nem vale por outro lado a pena saber o que teria sido a dita História se outras se tivessem apresentado as circunstâncias. Mas, na presente, a verdadeira salvação só virá no dia em que cada homem se convencer de que tem que ser ele o seu chefe. Ou, dentro dele, Deus."

Agostinho da Silva, in 'Textos e Ensaios Filosóficos'
recomendo um filme alemão de 2008, com argumento e realização de Dennis Gansel, que vi à pouco em dvd, e que me fora recomendado por um amigo, um filme que levanta muitas questões que se relacionam com estes assuntos: com a necessidade de ter chefes, de ser conduzido por algo que se imagina superior, e também com a vontade de ter poder sobre outros, com a necessidade de pertencer a algo, entre muitas outras coisas. a qualidade do filme reside aí, na complexidade de questões que levanta, a nível individual e colectivo: DIE WELLE (a onda).