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18.1.12

"... e eu quero a terra povoada de rijos corações que seguem os calmos pensamentos e a mais nada se curvam."



"o querer se apura, a visão do futuro nos surge mais intensa a cada golpe novo; o contentamente e a mansa quietude são estufa para homens; por aí se habituaram a ser escravos de outros homens, ou da cega Natureza; e eu quero a terra povoada de rijos corações que seguem os calmos pensamentos e a mais nada se curvam."
(...)
É necessário que se resista enquanto houver um fôlego de vida, mas que essa resistência seja sobretudo o contacto com a realidade da força criadora; é esta que afinal tudo leva de vencida e reduz oposições a pó inútil e ligeiro."



em "Textos e Ensaios Filosóficos" de Agostinho da Silva



24.4.10

"CADA HOMEM UM ARTISTA", JOSEPH BEUYS*

e,
na acidental e feliz expressão da minha irmã, CADA PESSOA UMA ARTISTA,


e,
como lembra Agostinho da Silva, a vocação do ser humano é ser poeta (à solta), criador, deus, no sentido da sua autodeterminação, "o homem não foi feito para ** trabalhar mas para criar" (AS) 


Crente é pouco
Sê-te Deus
E para o nada que é tudo
Inventa caminhos teus


(poema de Agostinho da Silva)


e,
" A criatividade não é um monopólio dos artistas... Quando eu digo que cada homem é um artista, quero dizer que todos podem determinar o conteúdo da vida na sua esfera particular, seja na pintura, na música, na engenharia, no cuidar de doentes, na economia por aí fora." (Joseph Beuys)



"O que afirmo é que cada ser humano é uma consciência totalmente particular, uma possibilidade. E essa possibilidade não está fechada. Pode desenvolver-se para tornar-se maior. E a melhor forma é mediante um processo de educação e informação. Mas esse processo de educação, mais uma vez, não tem de ser autoritário, mas deveria acontecer de maneira oscilante entre as pessoas, ou seja, como uma relação universal do professor e do aluno. Entre os seres humanos. Tão Universal, no fundo, que se possa dizer que a linguagem é o professor. Isto é, no momento em que falo sou momentaneamente o professor. E, quando escuto, o aluno. ( ...) Que se vença o mutismo entre as pessoas, que se supere a sua alienação e o seu distanciamento."(J.B.). 


daí que a intervenção de Joseph Beuys na Documenta V tenha sido o gabinete para a democracia directa, no qual Beuys põe em prática aquilo que acredita poder ser o ser humano, a arte e a sociedade. O gabinete de democracia directa possibilita que as pessoas discutam, conversem sobre coisas que lhes interessam, sobre aquilo que interfere nas suas vidas, que se organizem, que sejam agentes e não apenas instrumentos.  


___________________________________________________
* livro editado recentemente pela editora 7 nós (também ela recente), reproduz as conversas entre Beuys e os visitantes do gabinete para democracia directa, a sua intervenção na documenta V em 1972.
** a palavra trabalho deriva do latim tripalium (instrumento de tortura) associando-se a sofrimento, sacríficio e esforço. " observando como certas pessoas são coagidas a trabalhar - verdadeiros escravos da grande máquina social, apenas preocupada em produzir" (José Flórido, um Agostinho da Silva), Agostinho da Silva adverte para que o trabalho-produção, centrado no consumo, no ter, seja substituído pelo trabalho-educação que vá de encontro à realização integral do ser humano, ao seu ser. Aqui via Agostinho os fins do capitalismo e do desenvolvimento tecnológico, permitir que o ser humano tenha tempo livre, pois só no ócio podemos ser criadores e, portanto, "poetas à solta". 

29.1.10

SOBRE CRIAÇÃO ARTÍSTICA:


                                           Agostinho da Silva

Este é o primeiro de uma série de desenhos que pretendo fazer sobre o que possa ser isso da criação artística, segundo alguns autores que admiro e que pretendo desta forma retratar. 
Há uma frase de Jorge de Sena que me surge quando penso nestas inesgotáveis questões, é mais ou menos assim: a arte é tudo o que é feito enquanto tal. E assim é.





19.4.09

SOBRE O INDIVIDUO E A SOCIEDADE I


o tema deste post é motivado pelos comentários que fiz no passado post, REMEMBER HOW IT ALL BEGAN, e por alguns pensamentos que têm-me ocorrido, entre conflitos internos e externos.
perante a questão: o que é o ESTADO?, ou também, o que pode ele ser, ou o que deveria ele ser, três questões distintas, e não tendo eu ideias assim tão claras sobre o assunto, pesquisei e recolhi alguma informação...
durante essas pesquisas deparei-me, no sítio citador, com um texto de AGOSTINHO DA SILVA, sobre o hábito de ter chefes.
pareceu-me que esse pensamento de AGOSTINHO sintetizava alguns pensamentos que emergiam e se acotovelavam dentro de mim.
há uma ideia que me surge, a de que O ESTADO SOMOS TODOS NÓS, bem sei que as coisas não são assim, que é uma ideia irreal, mas, apesar disso, em mim desejada, penso que o estado não deve ser uma entidade autómata, penso que o ESTADO poderia ser outra coisa e penso que para isso acontecer também o indivíduo e a sociedade, enquanto conjunto indivíduos, teriam de ser também eles diferentes.
ou, para haver uma mudança naquilo que o ESTADO e a SOCIEDADE são, terá de haver, primeiro, uma mudança no indivíduo... e essa mudança só pode vir de dentro, embora haja talvez circunstâncias exteriores que potenciem essa mudança.


não quero, por agora, desenvolver estas ideias ainda um pouco imberbes e certamente nada novas, gostaria apenas de deixar-vos com o pensamento de AGOSTINHO DA SILVA, sobre a necessidade de ter chefes, e a imagem deste homem que é para mim uma referência em muitos campos da vida.

"De todos os hábitos a que nos entregamos, um reina sobre todos os outros no que se refere a malefícios quanto ao mundo futuro. É o hábito de ter chefes. O medo das responsabilidades, o gosto de se encostar aos outros, o jeito mais fácil de não ter que decidir os caminhos fizeram que a cada instante lancemos os olhos à nossa volta em busca do sinal que nos sirva de guia. Quando surge uma dificuldade de carácter colectivo, a primeira ideia é a de que devia surgir um homem que tomasse sobre os seus ombros o áspero martírio de ser chefe. Pois bem: pode ser que isto tenha trazido grandes benefícios em outras crises da História; nem vale por outro lado a pena saber o que teria sido a dita História se outras se tivessem apresentado as circunstâncias. Mas, na presente, a verdadeira salvação só virá no dia em que cada homem se convencer de que tem que ser ele o seu chefe. Ou, dentro dele, Deus."

Agostinho da Silva, in 'Textos e Ensaios Filosóficos'
recomendo um filme alemão de 2008, com argumento e realização de Dennis Gansel, que vi à pouco em dvd, e que me fora recomendado por um amigo, um filme que levanta muitas questões que se relacionam com estes assuntos: com a necessidade de ter chefes, de ser conduzido por algo que se imagina superior, e também com a vontade de ter poder sobre outros, com a necessidade de pertencer a algo, entre muitas outras coisas. a qualidade do filme reside aí, na complexidade de questões que levanta, a nível individual e colectivo: DIE WELLE (a onda).